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Radar apontou deformação de 15 mil m² na barragem da Vale

02 JUL 2019
02 de Julho de 2019

Fonte: https://www.almg.gov.br

Uma deformação de 14.800 metros quadrados (m²) em uma área monitorada da barragem B-1 da Mina do Córrego do Feijão, da Vale, onde as medições por radar ficavam em apenas 10 centímetros. Essa foi a grande alteração detectada pelo radar que monitorava a estrutura em Brumadinho (Região Metropolitana de Belo Horizonte), em 14 de janeiro deste ano, 11 dias antes do seu rompimento.

O dado da área, que corresponde à extensão de mais de dois campos de futebol e estava situada próxima ao centro da barragem, foi apresentado por Tércio Andrade Costa. Ele era operador do radar interferométrico da barragem B-1 e prestou depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito da Barragem de Brumadinho da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) nesta segunda-feira (1º/7/19).

Acompanhado de seu advogado Leon Obregon Gonçalves, o funcionário da Vale informou que mesmo em outras áreas monitoradas na barragem, o máximo de deformação atingido até o dia 14/1 ficava na faixa entre 200 e 400 m², ainda assim, em poucos casos.

Alterações teriam sido comunicadas a diretores da Vale

Tércio completou que todas as informações foram repassadas para seus superiores hierárquicos e para diretores da Vale que acompanhavam a situação na mina. Receberam o e-mail com imagens da deformação, de acordo com Tércio: Cristina Malheiros, sua chefe imediata, mas que estava sendo transferida para outra área; Artur Bastos, que a substituiu; Renzo Albiere, responsável pela gestão da mina e ainda, a engenheira Andréa Dornas.

Questionado pelo relator da CPI, André Quintão (PT), sobre as providências tomadas após sua comunicação às chefias, o operador do radar disse que Artur Bastos só lhe respondeu o e-mail. Na mensagem, o gerente informou que outros instrumentos de medição utilizados pela Vale apontavam que não havia movimentação irregular na barragem e que o quadro era normal. O e-mail, ainda conforme Tércio, foi copiado para o “nível máximo hierárquico” a que ele tinha acesso, Renzo Albieri.

“Desde o início das medições em Córrego do Feijão, em março de 2018, a área apresentava uma deformação no formato de uma linha reta. De dezembro em diante, apresentou uma parábola, o que significa uma deformação progressiva”, constatou Tércio. Ele revelou que a partir de dezembro desse ano, as alterações na barragem foram se ampliando, “em padrões superiores às que vinham sendo identificadas anteriormente”.

Formado em arquitetura, Tércio Costa registrou que opera radares na Vale deste 2013, “quando a tecnologia chegou ao País” e que foi treinado pelo fabricante do equipamento por cerca de seis meses. Ele ainda opera outros três radares na empresa, dois na Mina de Tamanduá e um em Capão Xavier, todos em Nova Lima (RMBH).

Fraturamento – André Quintão perguntou se o problema com o excesso de água na barragem e a consequente erosão provocada por um dreno instalado, em junho de 2018, foram detectados pelo radar. Tércio respondeu que sim, que o radar mostrou “mudança na aceleração e velocidade”. E explicou que seria como se a barragem tivesse balançado para frente e para trás.

O vice-presidente da CPI, deputado Sargento Rodrigues (PTB), questionou se os dados obtidos com o monitoramento do radar estavam guardados. Tércio declarou que todas as informações eram direcionadas para seu notebook e daí para um computador maior na administração da mina, que processa os dados e os converte em imagens. O parlamentar solicitou ao presidente, deputado Gustavo Valadares (PSDB), que requisitasse esses dados, no que foi atendido.

O operador também destacou que seu notebook, assim como seu login e senha, foram requeridos pelo gerente de planejamento da Vale, Tales Bianchi. Segundo a CPI, o equipamento teria sido confiscado por este último após o rompimento da barragem e encontrado em sua casa pela Polícia Federal.

Gerente diz que notebook foi entregue à Polícia Civil 

Presente à reunião, Tales Bianchi negou essa versão, dizendo que um delegado da Polícia Civil de Minas Gerais, de nome Dimas, lhe requisitou o computador. Tales informou que, antes de cumprir a ordem, consultou o gerente executivo da Vale e gestor do Comitê de Crise em Brumadinho, Rodrigo Araújo, que autorizou a entrega.

Então, afirma Tales, ele solicitou o notebook a Tércio, que o entregou, e o equipamento foi levado para a Faculdade ASA, de Brumadinho, onde funcionava o Comitê de Crise, e o delegado o recebeu. De acordo com Tales Bianchi, o policial entregou a ele um ofício declarando que a PCMG estava recolhendo aquela máquina.

Após os depoimentos, André Quintão avaliou que eles mostravam de modo ainda mais gritante a omissão e a negligência da Vale. “O fraturamento hidráulico, as alterações nos piesômetros e no radar, tudo isso revela que o rompimento da barragem do Córrego do Feijão poderia ter sido evitado e essa tragédia, que deixou quase 300 mortos, impedida”, concluiu.

Acareação - Sargento Rodrigues afirmou não ter dúvida nenhuma da culpa da Vale. Diante da omissão dos superiores de Tércio ao não tomarem providências após a alteração na barragem, ele propôs que a CPI realizasse uma acareação com os responsáveis: Cristina Malheiros, Artur Bastos, Renzo Albiere, e ainda com César Grandchamp, geólogo da Vale, que assinou laudo atestando a estabilidade da barragem.

“Eles eram os responsáveis e deviam ter tomado as providências. Tem muito a explicar a esta CPI”, apontou. “Estamos chegando aos responsáveis reais por essa tragédia. E graças ao trabalho muito mais meticuloso que as CPIs da Câmara dos Deputados e do Senado, estamos descobrindo tudo com detalhes, mostrando que a Vale sabia de todos os problemas”, concluiu.

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